Em março de 2026, o Parlamento Europeu aprovou o seu primeiro relatório histórico sobre a crise da habitação na União Europeia. O documento é extenso, político e de largo espectro, mas há uma realidade que não cabe nos números agregados e que raramente entra nas análises institucionais: a de quem tem casa, não tem dívida, e mesmo assim não tem margem de manobra.
Em Portugal, onde os preços da habitação subiram mais de 180% entre 2015 e 2025, a segunda maior subida da União Europeia, segundo o Eurostat, esta é uma situação cada vez mais comum. O imóvel valoriza. O acesso ao seu valor, não. E as decisões sobre o futuro ficam suspensas. Sobre este assunto conversamos com a Bárbara Barroso, fundadora e CEO do MoneyLab, uma das referências em literacia financeira no país.
Ela afirma que: "A relação dos portugueses com o imobiliário é profundamente cultural. A casa representa segurança, estabilidade e até estatuto. E, em muitos casos, tem sido uma boa decisão ao longo do tempo. No entanto, pode tornar-se uma limitação quando há uma concentração excessiva do património num único ativo."
Para Barroso, o problema não está no imóvel em si, mas na ausência de uma estratégia mais ampla em torno dele. "A falta de diversificação reduz flexibilidade e pode dificultar a adaptação a novas fases de vida ou oportunidades. O problema não está no imobiliário em si, mas na ausência de uma visão mais equilibrada do património."
Usufruto como solução de liquidez imobiliária: o que precisa de saber
A palavra "liquidez" raramente aparece nas conversas sobre imobiliário em Portugal. Fala-se de valorização, de rendimento, de herança. Mas falar de liquidez, da capacidade de aceder ao valor acumulado sem perder o que se construiu, é ainda um território pouco explorado na literacia financeira mainstream.
O usufruto estruturado como instrumento jurídico, permite ao proprietário aceder ao valor do imóvel através da venda da nua-propriedade, mantendo o direito de habitar a casa pelo tempo que entender. Não é uma venda. Não é um crédito. É uma separação entre o direito de uso e o direito de propriedade, com consequências financeiras imediatas e tangíveis.
Para a especialista, este tipo de solução representa o que falta em muitas estratégias patrimoniais: "A gestão de património exige mais do que conhecimento técnico, exige clareza, disciplina e alinhamento com os objetivos de vida."
Casa, memória e dinheiro: porque é tão difícil tomar decisões sobre o imóvel
Há também um fator que os modelos financeiros não capturam, e que Barroso identifica como determinante em muitas das decisões que as pessoas tomam, ou deixam de tomar.
"A casa é um ativo com uma carga emocional muito forte. Representa história, memória e identidade. Em momentos de transição, como a reforma, a perda de um ente querido ou uma separação, esse componente emocional pode dificultar decisões racionais. O risco é adiar decisões necessárias ou tomar decisões precipitadas."
É um diagnóstico que a UZU conhece bem. Grande parte dos proprietários chegam à plataforma porque estão numa fase de transição e precisam de uma solução que preserve, ao mesmo tempo, a continuidade e a estabilidade. O usufruto oferece exatamente isso, acesso à liquidez do imóvel sem ruptura com o espaço de vida.
Como tomar decisões informadas sobre o seu património imobiliário
Numa decisão que envolve o principal ativo de uma vida, a informação não é suficiente, é necessário que essa informação chegue no momento certo, com a clareza certa.
Bárbara Barroso é direta sobre como tomar uma boa decisão patrimonial: "A confiança não se conquista com marketing, conquista-se com rigor." E rigor, neste contexto, significa compreender o enquadramento jurídico, conhecer as implicações fiscais, e ter tempo para decidir sem pressão.
O usufruto não é um instrumento complexo, mas exige que quem o considera tenha acesso a informação e a aconselhamento personalizado. É esse o papel da literacia financeira: não substituir a decisão, mas criar as condições para que ela seja tomada com consciência. E é essa transparência que oferecemos aos clientes UZU.
Leia a seguir a entrevista completa com Bárbara Barroso, fundadora e CEO do MoneyLab.
1- Na sua perspetiva, quais são hoje os maiores desafios que as pessoas enfrentam na gestão do seu património? Porque é que, mesmo com mais acesso à informação, continua a ser difícil tomar decisões com clareza sobre o futuro financeiro?
Hoje temos mais acesso à informação do que nunca, o que é claramente positivo e representa um avanço importante. No entanto, o verdadeiro desafio está na capacidade de transformar essa informação em decisões estruturadas e consistentes ao longo do tempo. Muitas pessoas não têm ainda uma visão clara do seu património, dos seus objetivos ou do seu horizonte temporal, e sem essa base torna-se difícil tomar decisões com confiança. A gestão de património exige mais do que conhecimento técnico, exige clareza, disciplina e alinhamento com os objetivos de vida. Quando essa estrutura não existe, as decisões acabam por ser influenciadas por contexto, perceção ou emoção, o que pode comprometer a consistência ao longo do tempo.
2- Em Portugal, o imobiliário continua a ser visto como um dos principais ativos de segurança e estabilidade. Como avalia esta relação dos portugueses com a casa enquanto investimento e em que momento pode tornar-se uma limitação?
A relação dos portugueses com o imobiliário é profundamente cultural. A casa representa segurança, estabilidade e até estatuto. E, em muitos casos, tem sido uma boa decisão ao longo do tempo. No entanto, pode tornar-se uma limitação quando há uma concentração excessiva do património num único ativo. A falta de diversificação reduz flexibilidade e pode dificultar a adaptação a novas fases de vida ou oportunidades. O problema não está no imobiliário em si, mas na ausência de uma visão mais equilibrada do património.
3- O mercado imobiliário tem apresentado soluções alternativas, como o usufruto, que permite ao proprietário aceder à liquidez do imóvel sem abdicar do direito de nele continuar a viver. Na sua opinião, qual é o papel deste tipo de soluções no contexto atual? Devido à crise no acesso à habitação, acredita que estamos a caminhar para uma maior diversificação das opções disponíveis, para além da compra e venda tradicional?
Soluções alternativas no imobiliário refletem uma evolução natural do mercado e uma tentativa de responder a desafios cada vez mais evidentes, como a necessidade de liquidez e a dificuldade de acesso à habitação. Num contexto em que o património está muitas vezes concentrado em ativos pouco líquidos, começam a surgir modelos que procuram dar maior flexibilidade às pessoas.
4- Quando falamos de decisões que envolvem o património de uma vida inteira, de que forma a informação e a transparência influenciam a confiança das pessoas para dar esse passo? E o que devem as empresas do setor fazer para estar à altura dessa responsabilidade?
A informação e a transparência são determinantes. Quando alguém toma uma decisão sobre o património de uma vida, precisa de compreender exatamente o que está em causa, os benefícios, os riscos e as implicações a longo prazo. A confiança constrói-se com clareza e consistência. As empresas têm uma responsabilidade acrescida neste processo. Devem simplificar, explicar e não esconder complexidade. Num tema tão sensível, a confiança não se conquista com marketing, conquista-se com rigor.
5- No caso do usufruto, que critérios ou cuidados considera essenciais para alguém avaliar antes de tomar uma decisão sobre o imóvel onde construiu a sua vida?
Sempre que estamos perante decisões sobre o património, o mais importante é compreender bem o enquadramento jurídico e financeiro, avaliar o impacto a longo prazo e comparar alternativas. São decisões que exigem clareza, tempo e, idealmente, aconselhamento independente.
6- O usufruto cria uma oportunidade também para quem quer investir no imobiliário de forma diferente, adquirindo a nua-propriedade de um imóvel com desconto ajustado ao modelo de usufruto, menos gestão administrativa e potencial de valorização. Que perfil de investidor faz sentido para este tipo de produto e que critérios devem orientar essa decisão?
Qualquer decisão de investimento deve estar alinhada com o perfil de risco, o horizonte temporal e os objetivos de cada pessoa. Mais do que o produto em si, o essencial é compreender bem o modelo, os riscos associados e garantir que a decisão é tomada de forma informada.
7- A relação com a casa raramente é só financeira. Há momentos de vida, uma reforma, a perda de um cônjuge, uma herança ou um divórcio, que obrigam a repensar o que fazer com o imóvel, muitas vezes em contextos emocionalmente exigentes. Como é que esses fatores afetam a capacidade de decidir com clareza? E como pode uma pessoa equilibrar o coração e a razão quando se trata do sítio onde construiu a sua vida?
A casa é um ativo com uma carga emocional muito forte. Representa história, memória e identidade. Em momentos de transição, como reforma, perda ou separação, essa componente emocional pode dificultar decisões racionais. O risco é adiar decisões necessárias ou tomar decisões precipitadas. O equilíbrio passa por reconhecer essa dimensão emocional, mas enquadrar a decisão numa visão mais ampla. Separar o valor emocional do valor financeiro é difícil, mas essencial para tomar decisões mais conscientes.
Biografia
Bárbara Barroso é fundadora do MoneyLab, especialista em finanças pessoais, investidora e palestrante internacional com mais de 20 anos de carreira. Eleita pelo Canal História como a maior referência em finanças pessoais em Portugal, é formadora certificada, membro da Financial Planning Association e autora do bestseller Ponha o seu Dinheiro a Trabalhar para si. Vencedora do Prémio Cinco Estrelas 2025, é ainda criadora do podcast MoneyBar, um dos mais ouvidos em Portugal.